Sonia Abrão recebeu mensagem em que José Mayer explica assédio. O que Sonia achou das explicações?

Publicado em:

28/02/2023

Sonia Abrão recebe recado de José Mayer explicando assédio e saída da TV. Com clareza diz que não aceita desculpas
Sonia Abrão recebe recado de José Mayer explicando assédio. Não aceita as desculpas (FOTO Reprodução/RedeTV)

José Mayer explica assédio inexplicável

O produtor executivo da “A tarde é sua”, recebeu de José Mayer uma mensagem que encaminhou à Sonia.

O ator está internado há 10 dias, na CTI do hospital Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, pela volta de uma doença auto imune.

A doença não tem cura, mas quando volta, pode ser tratada.

José Mayer foi um ator, com uma longa carreira e muitos papeis marcantes.

Seus personagens eram marcados por um machismo típico do século passado, em que o homem era o cabeça do casal, tomava todas as decisões e a mulher cuidava do lar, dos filhos e do marido.

José Mayer explica assédio em 2017 a Sonia Abrao.Na foto Tião Bezerra em "A Lei do Amor" (2016), sua última novela na Globo
José Mayer explica assédio para Sonia Abrao.Na foto Tião Bezerra 2016, última novela na Globo (FOTO Rep./Globo)

Assim os homens tratavam as mulheres como “crianças crescidas”, com carinho, mas tanto homens como mulheres, tinham como verdade, a vontade soberana masculina e passividade e obediência feminina.

O tempo passou e as mulheres conquistaram independência, acumulando as funções que já tinham, com a obrigação de dividir o sustento da casa, ou mesmo mantendo a casa sozinha.

Esta mudança modificou a relação homem / mulher de soberania / obediência para igualdade de obrigações e deveres.

Alguns poucos homens tiveram dificuldade de entender e aceitar a mudança do status da mulher na sociedade e, como José Mayer, se deram muito mal.

Em 2017, o ator foi acusado de assediar uma figurinista, Suellen Tonani, que relatou que José Mayer se portou de forma inadequada com ela, não apenas uma vez, mas em diversas ocasiões.

Contou que o ator chegou inclusive a colocar a mão na genitália dela.

José Mayer assume erro e pede desculpas para Suellen Tonani por assédio. Em mensagem a Sonia Abrão. Explicação que não cola
José Mayer assume erro e pede desculpas para Suellen Tonani por assédio. (FOTO – Reprodução/Rede Globo)

José Mayer explica assédio e reconhece o erro, numa carta aberta, admitindo o abuso e pedindo desculpas:

“Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora. Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas”.

Ainda na carta ele garante que vai mudar para melhor:

“A única coisa que posso pedir a Suellem, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”

Tenta explicar o que não pode ser explicado, dizendo que em função dos seus personagens foi tachado de machista, quando de fato, foi machista na vida real:

“Eu, que me tornei uma espécie de ‘símbolo’ do velho homem machista pela repetição de tantos personagens com este perfil, acabei virando um alvo um tanto óbvio, mas concordo que a reconstrução de novos valores da masculinidade é, sim, uma necessidade de novos tempos”.

A carta aberta não foi escrita antes que uma enorme pressão fosse feita, tanto pelas funcionárias quanto pela empresa “Globo” onde ele era funcionário.

As explicações e desculpas não foram aceitas e José Mayer foi demitido. Nunca mais conseguiu trabalho. Foi uma “condenação perpétua”.

Sonia Abrão, compartilha desta condenação e se pronunciou de maneira categórica:

“Eu acho que, no geral, ele vai lá pra trás e acha que todo o ocorrido foi em função dos personagens machistas que ele interpretava, daí ele virou um alvo fácil e acabou sendo acusado de tudo aquilo… A noção que eu sempre tive e bate muito nessa tecla, é que a Globo realmente não podia tomar uma outra atitude”.

Sonia fala que o assédio a Suellen não foi o único, e que ele próprio se colocou no limbo:

“A acusação era seríssima e fazia todo sentido. Logo em seguida, vieram outras atrizes e falaram outras coisas… Enfim, ficou tudo lá em 2017, momento em que a Globo o desligou e ele próprio se desligou da carreira dele, até porque ele poderia ter ido para outra emissora, poderia ter ido fazer cinema, poderia estar no teatro, pois ele é um grande ator e isso ninguém pode negar”

“O motivo [da demissão da Globo] foi sério. No meu entender, sempre achei que a denúncia era procedente e as coisas acabaram se encaminhando do jeito que tinha que se encaminhar… Ele fala que foi um símbolo em função dos personagens machistas, mas não foi, foi por caso real mesmo, pelo menos na minha opinião”, concluiu Sonia Abrão.

Analisando os fatos com a distância de alguns anos, José Mayer, além de interpretar o personagem nas tramas das novelas, incorporou o personagem na vida real.

Carta aberta aos meus colegas e a todos, mas principalmente aos que agem e pensam como eu agi e pensava:

Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora

Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço.

Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, nao sou.

Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são.

Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.

Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi.

A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança.

Espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar.

Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta mudança. Dolorosa, mas necessária.

O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho, marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor.

José Mayer

Texto corajoso, escrito por Suellen Tonani em post, que determinou a demissão de José Mayer, não só da Globo, mas também da carreira de ator

Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser figurinista.

Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como “brincadeira”? A primeira “brincadeira” de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se iniciou com o simples: “como você é bonita”. Trabalhando de segunda a sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus “elogios”. Do “como você se veste bem”, logo eu estava ouvindo: “como a sua cintura é fina”, “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho”, “você nunca vai dar para mim?”.

Quantas vezes tivemos e teremos que nos sentir despidas pelo olhar de um homem, e ainda assim – ou por isso mesmo – sentir medo de gritar e parecer loucas? Quantas vezes teremos que ouvir, inclusive de outras mulheres: “ai que exagero! Foi só uma piada”. Quantas vezes vamos deixar passar, constrangidas e enojadas, essas ações machistas, elitistas, sexistas e maldosas?

Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: “você é mais velho que o meu pai. Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?”

A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo. Transforma tudo em aceitável, em tolerável, em normal. A vaidade é aquela que faz o outro crer na falta de limite, no estrelato, no poder e na impunidade. Quantas vezes teremos que pedir para não sermos sexualizadas em nosso local de trabalho? Até quando teremos que ir às ruas, ao departamento de RH ou à ouvidoria pedir respeito?

Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha b#cet@ e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar no meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua “piada”. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade.

Mas segui na engrenagem, no mecanismo subserviente.

Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontrá-lo. Tentando driblar sua presença para poder seguir. O trabalho dos meus sonhos tinha virado um pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão na b#cet@, nada de pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a coisa mais distante da sanidade que eu tinha vivido.

Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo, ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não silenciei.

“VACA”, ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?

Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Liguei para a ouvidoria. Fui ao departamento que cuida dos atores. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. Contei que tudo escalou e eu não conseguia encontrar mais motivos, forças para estar ali. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu tomar as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que lei fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?

Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas as vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?

Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.

Não quero mais ser encurralada, não quero mais me sentir inferior, não quero me sentir mais bicho e muito menos uma “vaca”. Não quero ser invisível se não estiver atendendo aos desejos de um homem.

Falo em meu nome e acuso o nome dele para que fique claro, que não haja dúvidas. Para que não seja mais fofoca. Que entendam que é abusivo, é antigo, não é brincadeira, é coronelismo, é machismo, é errado. É crime. Entendam que não irei me calar e me afastar por medo. Digo isso a ele e a todos e todas que, como ele, homem ou mulher, pensem diferente. Que entendam que não passarão. E o que o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo.”

No Instagram a atitude que Suellen Tonani a anos atrás, ainda repercute e influencia:

Suellen Tonani no Instagram: Mexeu com uma mexeu com todas #chegadeassedio

Já fazem quase 4 anos que Suellen Tonani, tomou uma atitude corajosa, de desafiar o sistema de poder de uma empresa como a Rede Globo e, de forma inesperada, ter vencido!

O comentário que um seguidor fez em seu Instagram mostra que a influência da sua atitude chegou viva aos dias de hoje:

Nicolas Colini
“oi sua linda e corajosa! parabéns por ter sido tão forte na denúncia. estou aqui 3 anos depois mas não é tarde pra lhe parabenizar ❤️🌸”

Veja vídeo sobre o abuso sofrido por Susllem clicando aqui.

Quer saber mais sobre televisão? Clique aqui.

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